Instituto Pensar - Empresa israelense abandona disputa por venda de equipamento espião

Empresa israelense abandona disputa por venda de equipamento espião

por: Ana Paula Siqueira 


Após a revelação que o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RS), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), atuou na negociação de um software de espionagem em favor da Pegasus, a empresa israelense abandonou o pregão do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O episódio expôs a disputa entre o alto comando militar e o filho "02? de Bolsonaro. A atuação do vereador gerou insatisfação por parte de militares que integram o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Agência Nacional de Inteligência (Abin), já que os órgãos ficaram de fora das tratativas. As informações são do Uol.

Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o político carioca tenta usar as estruturas do Ministério da Justiça e da Polícia Federal (PF) para expandir uma "Abin paralela?, na qual tenha grande influência.

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Proposta no pregão era de R$ 60,9 milhões

A licitação para compra do equipamento teve como critério de julgamento o menor preço. As empresas tiveram até uma hora antes do início do pregão para cadastrar as propostas. Mas, para contenção de danos a empresa brasileira responsável por comercializar o Pegasus, a M.C.F da Silva, se retirou do processo licitatório.

As siglas são do nome do dono da empresa, Marcelo Comité Ferreira. Ele é responsável por chefiar o escritório da israelense NSO Group no Brasil e pela comercialização do sistema espião no país. Antes, a empresa havia apresentado uma proposta de R$ 60,9 milhões.

Ligações diretas com empresa israelense

A ligação do empresário com a NSO é evidenciada por ele mesmo que, ao apresentar a oferta no momento de instrução, que está sob sigilo no Ministério da Justiça, precisou expor informações da empresa.

Ele não informou que trabalha diretamente para a NOS, mas o e-mail cadastrado consta a referência "@nsogroup.com?. Na rede social Linkedin também traz um "tracing? (rastreamento de contatos) em torno de Israel e da NSO.

Fontes ouvidas pelo Uol reforçam que o único produto da empresa israelense comercializado pelo empresário é o Pegasus. Procurado, o empresário não respondeu à reportagem.

Jornalistas e ativistas já foram espionados

Em setembro de 2018, o projeto de Direitos Humanos do Citizen Lab, vinculado à Universidade de Toronto, no Canadá, demonstrou que o Pegasus já coletou dados de cidadãos de 45 países, incluindo de brasileiros. E já foi usado para espionar celulares e computadores de jornalistas, ativistas e críticos de governos ao redor do mundo.

A entidade afirma também que o polêmico sistema já foi "abusivamente usado? para espionar civis em países como México, Marrocos, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, entre outros.

Finalista não diz qual produto oferece

Com a saída da empresa responsável pelo sistema Pegasus do certame, oito participantes foram finalistas do processo, sendo a empresa Harpia Tecnologia Eireli obteve a melhor colocação, com uma proposta de R$ 22 mil para cada licença adquirida, o que totaliza R$ 5,5 milhões.

Algumas inconsistências foram verificadas. A principal foi não ter informado que produto seria oferecido, "tanto na proposta eletrônica, quanto na proposta anexada?. Ou seja: a empresa ganhou o pregão sem dizer qual ferramenta estava oferecendo.

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Proposta em "avaliação técnica? no pregão

Ao UOL, a Harpia confirmou que a proposta "encontra-se sob avaliação da equipe técnica? do ministério, e que pode atestar que a ferramenta oferecida "coleta apenas informações abertas, sem nenhum viés invasivo?.

A empresa, no entanto, é única a oferecer produtos nacionais, um ponto importante para os militares por questões de segurança nacional. As demais preveem o armazenamento de dados no exterior.

Negativas sobre interferência

Carlos Bolsonaro não respondeu à reportagem. O Ministério da Justiça reafirmou que o processo de licitação visa a "aquisição de ferramenta de busca e consulta de dados em fontes abertas para ser usado, pelo ministério e por órgãos de segurança pública, nos trabalhos de enfrentamento ao crime organizado?.

Na última quarta-feira (19), a pasta negou "qualquer articulação? com Carlos Bolsonaro, e que a licitação não se trata de contratação de "sistema de espionagem?.

Com informações do Uol



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